SÃO PAULO – Ontem, ao ser apresentado por Jim Zemlin, diretor executivo da Linux Foundation, o programador finlandês Linus Torvalds, de 40 anos, foi descrito como um “Bill Gates ou Steve Jobs em potencial”. Linus criou o Linux, sistema operacional de código aberto, que pode ser modificado livremente e usado gratuitamente, principal concorrente do Windows, da Microsoft.

A principal diferença, como definiu o próprio Linus, é que, enquanto os outros sistemas operacionais foram concebidos como produtos de uma empresa, o Linux foi, desde o começo, uma tentativa de suprir as necessidades de seu próprio criador. “Fiz o Linux porque precisava, porque queria ter um sistema que se adaptasse às minhas necessidades”, afirmou.

O pai do Linux ainda sugeriu que o sucesso veio por acidente, ao encontrar uma crescente demanda por software gratuito que até alguns anos antes era insignificante. No entanto, a postura de Linus, em um papel mais harmonizador que de confronto, ainda ajuda a facilitar o sucesso nas relações com parceiros tecnológicos e comerciais – diferente de grandes empresas, como Microsoft e Apple, que impõem restrições com a intenção de proteger seus produtos, desenvolvidos internamente.

Em sua primeira visita ao Brasil, Linus participou da LinuxCon, que começou ontem, em São Paulo. Maior conferência internacional sobre o sistema operacional, o evento estreia no Brasil trazendo nomes fundamentais do desenvolvimento Linux, como o programador Andrew Morton e o próprio Linus.

Celebridade. Linus Torvalds foi recebido como celebridade pelo público presente – em sua grande maioria, programadores, e desenvolvedores do sistema operacional que ele criou. Linus e Morton discutiram o presente e futuro do sistema operacional gratuito, enfatizando pontos que têm se tornado tema de discussão recorrente entre a comunidade de desenvolvedores – como a possibilidade de uma subdivisão na base do sistema, tornando diferentes e específicas as versões para smartphone, notebooks, PCs e servidores.

Linus foi enfático ao afirmar que “costumava pensar em subdividir o sistema, mas estava completamente errado”. Segundo o desenvolvedor, a unificação traz benefícios entre diferentes aparelhos – por exemplo, o código que torna o consumo de energia mais eficiente em um celular também pode melhorar o desempenho do Linux em um notebook ou servidor.

Após posar para, literalmente, centenas de fotos ao lado de programadores e fãs, Linus Torvalds aproveitou para contar sua experiência após 18 anos de Linux. “Para criar um sistema operacional você precisa ter 20 e poucos anos e nenhum conhecimento de mercado”, afirmou, explicando que o trabalho necessário é tão grande que “se fosse hoje”, teria desistido.

Talvez não seja verdade, afinal, o próprio Linus revelou ser dono de um hábito de programar a partir de sua própria necessidade. “Programo desde os 12 anos”, disse ele. “Se eu precisasse de um editor de texto, eu ia lá e programava. Se eu quisesse jogar um game, ia lá e escrevia o código.”

“Hoje em dia, eu basicamente só leio e-mails”, disse Linus, explicando que sua participação fica mais restrita à orientação da equipe e dos desenvolvedores. O desenvolvedor afirmou que não se preocupa tanto com o código do Linux agora, pois confia na comunidade de colaboradores criada.

Agora Torvalds se ocupa mais com as viagens, e com seu hobby de mergulhar. “Eu sempre tento mergulhar, em todos os países que visito.”

Faça você mesmo

LINUS TORVALDS – CRIADOR DO LINUX

“Programo desde os 12 anos. Se eu precisasse de um editor de texto, eu ia lá e programava. Se eu quisesse jogar um game, ia lá e escrevia o código”
PARA ENTENDER

Comunidade desenvolve o software

Surgido como um hobby do finlandês Linus Torvalds, o Linux acabou se tornando um negócio importante. Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, 20% dos servidores de rede nas empresas brasileiras usam o sistema operacional. O software tem o apoio de gigantes do mercado mundial de tecnologia, como a IBM, a Oracle e o Google.

Apesar do apoio de grandes corporações, o Linux é desenvolvido e mantido por uma comunidade de programadores, que dedicam muitas horas ao sistema operacional. O resultado é distribuído gratuitamente, e qualquer um pode modificá-lo. Outros casos de sucesso de software de código aberto são o navegador Firefox, o servidor de web Apache e o sistema operacional de celulares Android.

Fonte: http://economia.estadao.com.br/noticias/not_33725.htm