A trajetória do BitTorrent no mercado de tecnologia mudou radicalmente em 2005, quando a empresa, fundada por Bram Cohen, anunciou que deixaria de listar conteúdos protegidos por direitos autorais em seu software para apostar em um sistema de distribuição de conteúdo legalizado.

Desde então, o sistema criado por Cohen em 2001 não deixou de ser usado ostensivamente para o download de games, filmes, vídeos e músicas sem o devido pagamento de direitos autorais. Em outras palavras: Hollywood ainda teme a tecnologia, mesmo sem a responsável pelo início da onda.

Como mostra estudo da consultoria Ipoque, o sistema de troca de arquivos que distribui pedaços do conteúdo em diferentes máquinas, o que não sobrecarrega um único servidor, representava entre 43% e 70% do tráfego online, dependendo da região do mundo no ano passado.

A rejeição ao uso “ilegal” da tecnologia era apenas o primeiro passo. Logo depis, o BitTorrent precisou correr atrás de formar de ganhar dinheiro com a tecnologia. E encontrou uma potencial solução entre aquelas que o consideravam seu pior inimigo: as provedoras de internet.

Em março de 2008, a Comcast anunciou parceria com o BitTorrent para criar um sistema próprio de transferência de arquivos para melhorar o gerenciamento das redes frente à popularização de conteúdos multimídia, como vídeos ao vivo, por exemplo.

Dias antes de vir ao Brasil para palestrar no Web Expo Forum, o diretor geral da empresa, Eric Klinker, detalhou ao IDG Now! o desenvolvimento da tecnologia e como operadoras pelo mundo (ele cita a Telefonica como uma das interessadas na América do Sul) podem usá-la.

Além do evento, Klinker tem outro compromisso oficial: vai se reunir com o ministro da Cultura, Juca Ferreira, na próxima semana para discutir um projeto do ministério para distribuição de vídeos sobre a cultura brasileira.

Em 2005, o criador da tecnologia, Bram Cohen, afirmou o BitTorrent deixaria de listar arquivos protegidos por direitos autorais. Foi uma estratégia acertada?
Foi provavelmente uma boa estratégia para os detentores dos direitos autorais. Pudemos dizer para eles “olhe, você pode mover uma grande quantidade de dados por um custo muito baixo”.

Tivemos algumas empresas há três anos trabalhando na direção de lojas online próprias. Nós também criamos uma loja online genérica e apostamos em um serviço de entrega de conteúdo por torrent para empresas.

E como está indo este serviço?
As parcerias ainda estão sendo exploradas, mas como uma empresa de distribuição de mídia, não funcionou. Há razões óbvias para não termos tido sucesso. O BitTorrent é uma empresa de tecnologia, não uma iniciativa de varejo online. Foi um total engano. Não tínhamos as habilidades necessárias quando executamos o plano.

O BitTorrent fechou parceria com a provedora Comcast para criar uma tecnologia de transporte de conteúdo. Como está o projeto?
A tecnologia está sendo padronizada agora pela Internet Engineering Task Force (IETF). O protocolo de transporte que criamos é um projeto muito bom que preserva recursos para aplicações que operam dentro da rede.

Pela tecnologia, operadoras terão a habilidade de ver como (a troca de arquivos) acontece dentro de suas redes. A tecnologia será integrada em nosso software e pela comCast e, depois de ser padronizada, outras operadoras também poderão adotar.

Isto quer dizer que operadoras, com a tecnologia, terão mais poder para bloquear determinados protocolos em suas redes?
Acho que não bloquear, mas gerenciar. Se pudermos dar mais uma ferramenta… E é algo positivo, já que, se não trouxer benefícios ao usuário, não terá sucesso. Queremos uma abordagem mais positiva de gerenciamento de rede que as demonstradas no passado.

Quais operadoras estão envolvidas nisto?
Falamos com todas (nos Estados Unidos). Somos uma empresa pequena que está tentando atingir todas as operadoras no mercado. Na América do Sul, conversamos muito com a Telefonica. Há também operadoras de cabo na região (interessadas na tecnologia).

No começo, o torrent era visto como ameaça às operadoras. Agora, a BitTorrent fez parceria com uma delas para desenvolver uma tecnologia que outras podem usar. O que mudou?

Muitas coisas. Houve a pressão regulatória que emergiu da investigação sobre a Comcast feita pela FCC. Acho que foi o motivo principal.

Parece-me que as operadoras mudaram por verem a oportunidade de trabalharem com empresas de tecnologia, como nós, por uma abordagem diferente para muito dos problemas que tinham. São questões com as quais precisamos lidar diariamente. O diálogo começou após a pressão regulatória já que não era ali que estavam as respostas.

Como o BitTorrent ganha dinheiro?
Estamos criando um repositório de software para entrar que, assim que o cliente é baixado, ofereçamos downloads ao usuário.

Assim, ficaríamos com uma parte da transação finalizada. Não forçaremos nossos usuários, eles terão que optar pelas ofertas. Isto nos torna minimamente lucrativos. Não ganhamos muito dinheiro, mas conseguimos pagar as contas e manter as inovações apresentadas ao mercado.

Fonte: http://idgnow.uol.com.br/internet/2010/03/15/entrevista-bittorrent-de-pesadelo-de-hollywood-a-aliado-das-operadoras/